Em 2024, 30% dos fios de cobre usados no Brasil vieram do mercado ilegal

Segundo o coordenador técnico do SINDICEL, união entre entidades é uma alternativa à mitigação da pirataria no setor e à proteção do consumidor

Durante a segunda edição do “Desbravando Caminhos para o Comércio de Bens e Serviços sem Fraude”, evento promovido pela ABRAPEM em parceria com a REMESP, ficou evidente que todos os setores industriais enfrentam problemas de não conformidade em algum dos elos que formam a sua cadeia. Alguns, com a entrada de materiais ilegais; outros, com as vendas de produtos irregulares nas plataformas de e-commerce e em lojas físicas. Outros, ainda, possuem desafios no mercado interno, como a não conformidade intencional de alguns fabricantes e importadores.

Esse último caso é um dos desafios diários enfrentados pelo SINDICEL (Sindicato da Indústria de Condutores Elétricos, Trefilação e Laminação de Metais Não Ferrosos do Estado de São Paulo) na luta por um mercado sem fraudes. 

O sindicato foi representado no evento por Eduardo Daniel, Coordenador Técnico da entidade, que apresentou uma estatística que assustou o público: em termos de volume de cobre consumido no Brasil em 2024, foram 186 mil toneladas. Desse total, cerca de 30% se originaram do mercado ilegal. Aproximadamente 55,8 mil toneladas.

“Quando eu digo 30% dos produtos, não quer dizer que 30% dos fabricantes trabalham de forma ilegal. Se nós fôssemos fazer o equivalente aqui, eu diria que 90% dos fabricantes que estão no mercado são regulares. No entanto, esses 30% representam aquele fabricante que tem várias marcas diferentes com a intenção de burlar a fiscalização”, explica Daniel.

Talvez não fique claro para alguns como isso afeta o público, mas, segundo o especialista, o impacto é visto em situações do cotidiano. Quem mora em São Paulo, por exemplo, sabe que a cidade tem ganhado cada vez mais prédios de moradia. “Muitas construtoras, na tentativa de economizar, optam por comprar produtos mais baratos (geralmente irregulares). Resultado: o morador tenta ligar um condutor para ar-condicionado e um incêndio se inicia”, exemplifica.

“É isso que está acontecendo em termos de projetos novos de edifícios residenciais de construtoras boas, tradicionais”, conta ele. “A gente tem feito esse monitoramento também, porque nessa área o Inmetro não entra, já que a instaladora, ou a construtora, compra direto do fabricante. Isso para nós é muito assustador. Vemos casos assim um atrás do outro.”

Daniel fez questão de mencionar o setor de energia fotovoltaica, que também sofre com a circulação de cabos irregulares. “Se essa situação não for revertida, a tecnologia fotovoltaica vai cair em desuso por conta dos acidentes”, enfatizou. Para evitar problemas, o SINDICEL recomenda que os consumidores comprem cabos produzidos por seus associados, visto que todos estão de acordo com a NBR 16612, norma específica para esses objetos.

Na luta contra o mercado ilegal, quanto mais tempo se leva para encontrar soluções, mais ele se expande. Com isso, uma parceria firmada entre o SINDICEL, Inmetro e Qualifio (Associação Brasileira pela Qualidade dos Fios e Cabos Elétricos) levou à criação de laboratórios móveis, unidades itinerantes equipadas com tecnologia de ponta para verificar a qualidade e a segurança dos cabos elétricos, protegendo os consumidores e promovendo a segurança no setor elétrico. 

“Esse foi um investimento alto, bancado pelos nossos associados e da Qualifio, mas fizemos isso porque acreditamos que vale a pena para ver o mercado ilegal perdendo espaço em nosso segmento”, finalizou Daniel.

Novamente, temos a demonstração de que a união entre órgãos públicos e a iniciativa privada se mostra eficiente na diminuição da circulação de produtos ilegais, fator crucial para o bem-estar e a segurança dos consumidores e fortalecimento da economia nacional.

A impressão final foi altamente positiva. Carlos Amarante, presidente da Abrapem, comentou que está seguro ser possível ampliar a colaboração já existente hoje entre a entidade que preside e outros sindicatos industriais e associações para encontrarem uma forma de diminuir a presença de instrumentos metrológicos irregulares no mercado. Amarante aplaudiu a iniciativa da criação de um laboratório móvel para testar fios e cabos elétricos. De maneira um pouco diversa, a Abrapem tem adquirido balanças irregulares no mercado brasileiro, testado a sua qualidade e denunciado frequentemente essas ofertas em plataformas de comércio eletrônico junto às autoridades: IPEMs, Inmetro, Receita Federal do Brasil etc.